Microbiologista, escritora e professora da Universidade de Columbia

O medo da biotecnologia ameaça os esforços para salvar o feijão carioca no Brasil
20 de junho de 2025
A combinação de arroz com feijão é a marca registrada da culinária brasileira, sendo o feijão carioca responsável por 70% do consumo desses grãos no país. Trata-se de um alimento básico tipicamente brasileiro: não há importação de feijão carioca – apenas feijão preto é importado. Portanto, se os brasileiros quiserem continuar desfrutando do feijão carioca em suas refeições diárias, é preciso garantir a produção nacional. Essa produção, porém, tem sido recentemente comprometida, não por uma praga, mas pelo medo.
Regulamentação dos transgênicos no Brasil
O Brasil tem mais de uma centena de variedades de culturas transgênicas aprovadas por órgãos reguladores, embora apenas três produtos estejam efetivamente no mercado: soja, milho e algodão. Colocar esses três produtos no mercado não foi tarefa fácil. A regulamentação de transgênicos no Brasil demorou muito, envolve uma burocracia pesada e está constantemente ameaçada por grupos anti-OGM.
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) foi criada em 1995 para responder à necessidade urgente de regulamentar os transgênicos no país. Durante os anos 1990, sementes de soja transgênica foram compradas ilegalmente da Argentina – conhecidas como “sementes Maradona” – e cultivadas no Sul do Brasil. O governo estava sob forte pressão para agir e regulamentar os transgênicos. Em 2002 e 2003, medidas provisórias presidenciais permitiram a comercialização dessas sementes.
Esses acontecimentos deram início a uma grande confusão no entendimento público da biotecnologia. Um juiz local, na época, proibiu a comercialização da soja transgênica, alegando que corríamos o risco de permitir que “alienígenas hospedeiros de aparência venenosa comprometessem a saúde das futuras gerações”.
O movimento “Por um Brasil Livre de Transgênicos” foi lançado por uma coalizão de ONGs anti-OGM. Passadas duas décadas, ativistas e consumidores ainda estão confusos sobre as diferentes tecnologias de modificação genética. Uma pesquisa de 2016, conduzida pelo Conselho de Informações em Biotecnologia, mostrou que 80% dos entrevistados não queriam comer nada que contivesse DNA. Uma pesquisa mais recente, realizada pelo Instituto Questão de Ciência (2019), revelou que 73% dos entrevistados acreditam que os transgênicos fazem mal à saúde.
Esse medo da tecnologia nos impede de liberar novos OGMs no mercado. E é aqui que voltamos ao feijão carioca — também conhecido como feijão pinto. Os consumidores brasileiros devem ter notado que o preço desse feijão aumentou significativamente nos últimos anos. A razão por trás dessa alta é uma praga causada pelo vírus do mosaico dourado do feijoeiro. Moscas-brancas transmitem o vírus, que pode causar perdas de 40 a 100% nas lavouras afetadas. Notavelmente, as plantas infectadas não crescem. Em vez disso, ficam amareladas e suas folhas apresentam a aparência de um “mosaico” verde e amarelo. Por fim, as vagens e os grãos não são viáveis. Uma planta pode abrigar até 300 insetos. Para piorar, essas moscas-brancas se proliferam rapidamente: seu ciclo de vida dura apenas 19 dias, do ovo ao adulto. As ninfas – insetos recém-saídos dos ovos – também transmitem o vírus, sugando a seiva da planta. Quando as moscas contraem o vírus de uma planta contaminada, passam o resto da vida capazes de transmiti-lo a outras plantas. O feijão é especialmente suscetível.
A queda na produtividade do feijão carioca também levou ao aumento da importação de feijão preto.
O medo da tecnologia
A Embrapa desenvolveu um feijão geneticamente modificado resistente ao vírus devastador. Eles foram criados em 2004, aprovados em 2011 e finalmente liberados para comercialização no fim de março. As sementes já estão sendo cultivadas para vendas comerciais. Mas estão sob ameaça.
A Câmara Setorial do Feijão convocou uma reunião para discutir os feijões RMD, motivada por uma nota conjunta do Instituto Brasileiro do Feijão, Pulses e Colheitas Especiais (Ibrafe) e do Conselho Brasileiro do Feijão e Pulses (CBFP). As associações alertaram contra o uso dos novos feijões, dizendo haver “necessidade de incinerar as sementes transgênicas para eliminar o risco de que essa cultivar possa, de alguma forma, ser usada no futuro”.
Esses opositores questionam a segurança dos transgênicos, apesar do consenso científico de que alimentos geneticamente modificados são tão seguros para o consumo humano quanto seus equivalentes convencionais.
O problema
Informações da Embrapa Arroz e Feijão estimam que a perda de produção causada pela proliferação das moscas-brancas representaria entre 90 mil e 300 mil toneladas de feijão carioca — o suficiente para alimentar até 15 milhões de pessoas. Sem feijões resistentes ao vírus, a única forma de combater o mosaico dourado é eliminar as moscas com inseticidas.
O custo desses inseticidas seria alto. Um único produto ou aplicação não basta. Para proteger as lavouras, os agricultores seriam forçados a usar um coquetel de pesticidas em muitos ciclos de aplicação.
Além do custo financeiro e do impacto ambiental, o método não é plenamente eficaz. O uso prolongado e excessivo de inseticidas acaba selecionando populações de moscas-brancas resistentes.
Isso deixa os produtores com duas opções: pagar pelo preço dos agrotóxicos e garantir a colheita, ou desistir de plantar feijão na primeira safra (mais quente) e substituí-lo por outras culturas. Ambas as decisões resultam em aumentos significativos no preço para os consumidores.
A solução
Um feijão resistente ao vírus foi criado por uma equipe liderada por Francisco Aragão e Josias Faria, utilizando a técnica de interferência por RNA. Trata-se, basicamente, de imitar um mecanismo de silenciamento gênico que já existe naturalmente. Na natureza, quando o vírus infecta o feijão, a planta desenvolve pequenos RNAs interferentes — essencialmente, uma resposta imune da planta à infecção.
Infelizmente, o processo natural demora a ocorrer, e a planta acaba desenvolvendo sintomas graves. O mesmo ocorre com humanos em várias doenças infecciosas: o sistema imunológico responde, mas às vezes a doença é tão agressiva que o paciente morre. Para muitas doenças infecciosas graves em humanos, temos vacinas. Em certo sentido, Aragão e sua equipe criaram uma “vacina” para os feijões.
O feijão resistente ao mosaico produz esses pequenos RNAs — que impedem a replicação do vírus na planta — mais rápido e de forma mais eficiente do que a resposta natural. O método não apenas salva a planta, mas também controla a disseminação do vírus, evita que a doença circule, contamine mais moscas e, consequentemente, mais lavouras. Em humanos, chamamos isso de “imunidade de rebanho”: quando grande parte da população é vacinada, a doença não consegue mais circular.
De forma significativa, esta é considerada a medida mais eficaz no controle de doenças.
Vários países já adotaram técnicas semelhantes para cultivar plantas resistentes a outros tipos de vírus, como o milho (África do Sul), o tomate (Cuba) e a mandioca (EUA). Nossos feijões também foram escolhidos como modelo de biossegurança no projeto internacional GMO Environmental Risk Assessment Methodologies (GMO-ERA), para aplicação de uma nova metodologia de análise de políticas públicas chamada Problem Formulation and Options Assessment (PFOA).
O debate
A proposta PFOA é uma metodologia de análise que leva em conta a participação do governo, de cientistas e da sociedade civil. O feijão da Embrapa foi selecionado como modelo no debate porque ainda estava em fase de testes, representava um alimento essencial para a cultura brasileira e envolvia tanto pequenos quanto grandes produtores.
O grupo de estudos contou com representantes de supermercados, consumidores, ambientalistas, cooperativas agrícolas, produtores e pesquisadores em sociologia rural. O grupo emitiu parecer favorável ao feijão RMD, destacando as vantagens para produtores e consumidores finais, a redução do uso de agroquímicos e a necessidade de transparência para os consumidores, respeitando seu direito de escolha.
Ou seja, os feijões foram avaliados por um conjunto diverso e representativo de atores sociais — e foram aprovados. Até mesmo associações notoriamente contrárias ao uso de transgênicos, representadas no grupo, concordaram com a aprovação dos feijões RMD.
Menos pesticidas
Uma pesquisa da Associação Brasileira da Indústria do Arroz mostrou que 76% dos produtores de feijão enfrentam o problema do mosaico dourado, e apenas 38% conseguem controlá-lo. Oitenta e seis por cento veem a possibilidade de ter um feijão transgênico resistente como algo positivo e declaram que pretendem adquirir a semente assim que disponível no mercado.
A indústria de empacotamento é mais dividida: 50% dizem que comprariam esses feijões mais resistentes. No entanto, é importante notar que as justificativas dos 50% preocupados com a comercialização estão baseadas no receio em relação à rotulagem — o Brasil rotula transgênicos — e à reação do consumidor final, influenciada pelo forte movimento anti-OGM no país.
Os transgênicos, a edição genética e a biotecnologia em geral precisam ser melhor comunicados ao público. Notavelmente, a questão da segurança é uma falsa controvérsia: não há motivo para assumir que alimentos geneticamente modificados sejam menos seguros do que aqueles desenvolvidos por técnicas consideradas “naturais” de melhoramento. E cada OGM passa por testes e estudos que representam um nível de exigência inexistente em outros ramos da agricultura.
Além disso, a variedade não foi desenvolvida por “grandes corporações do mal”. Afinal, esses feijões não estão atrelados à venda de pesticidas e não são uma commodity tipicamente explorada por grandes empresas agrícolas. Portanto, não parece haver razão para manter os feijões RMD fora do mercado brasileiro.
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